NewsLetter:
 
Pesquisa:

Entrevista: Tiburcio
Por Alexandre Nagado
18/07/2010

"Quanto mais diversificado for o quadrinho nacional, melhor!"

O ilustrador e quadrinhista Marcelo Tiburcio Vanni, 47 anos, nasceu e vive em Niterói (RJ). Ex-colaborador da MAD e dono de um traço simpático e divertido, Tiburcio é o autor da série de webcomics "Meu Monarca Favorito", em que conta a história de um reino fictício governado por um monarca gente boa (inspirado em D. Pedro II), cujos dias no poder estão contados, graças ao movimento dos republicanos sedentos de poder. Em um papo franco e muito inspirador, ele conta sobre sua carreira e ideais. Confiram a seguir!

1 - Como foi seu início profissional?

Quando adolescente, eu enviava meus quadrinhos e cartuns para um suplemento infantil – o Pingo de Gente – que vinha encartado em um jornal aqui de Niterói, O Fluminense, onde publicava ainda de forma amadora meus desenhos. Mas foi nesse suplemento que um dia passei a ser remunerado – tive uma página dominical - e posteriormente trabalhei por cerca de um ano como ilustrador do Jornal. Depois dessa etapa eu estava com uns 20 anos e, desligado do Jornal, comecei a fazer meus primeiros freelas para house organs enquanto cursava a Belas Artes na UFRJ.

2 - E sua passagem na MAD, como foi? Tem algum trabalho favorito nessa fase?

A MAD foi bem assim: eu havia conseguido uma vaguinha como assistente de arte em uma boutique na área de estamparia, trabalhando com estampas em papel poliéster nanquim e talco. Tinha um portfólio pobre em estilo e acabamento, mas extenso por causa do jornal. Definia que eu era experiente, mas um tanto cru. E um dia comentei com alguém, se não seria uma boa ir à MAD mostrar meus desenhos, e encorajado pelos amigos lá fui eu.

Nesse dia eu conheci o Otacílio, o editor mais honesto – eu gosto de frisar essa qualidade dele, pois é muito mais forte para mim do que as demais – que conheci. Ele olhou meu portfólio e achou tudo horrível (risos). Quando achei que ele ia me expulsar de lá, ele abriu o arquivo dele e me deu um artigo para eu ilustrar a título de teste. E eu retruquei – um artigo inédito? – Ele respondeu – claro, pois se eu gostar publico e te pago, você não vai ter trabalhado à toa – e esse foi o primeiro artigo que ilustrei. Do Ota – e por tabela da MAD e da Record - guardo lembranças muito boas. Um dia eu cheguei lá para pegar uma matéria para ilustrar e comentei que estava com o meu aluguel atrasado. Ele deu um pulo – “não atrase aluguel, é muito ruim!” – me deu assim, tipo três artigos de uma só vez para eu ilustrar e poder pagar minha dívida. Ao mesmo tempo recusava material quando não era bom o bastante, ou quando era ofensivo ou inofensivo demais. Um dia cheguei lá com uma página do tipo “Cenas que gostaríamos de ver” e ele olhou, virou pra mim e disse, isso é poesia, não dá pra publicar! E minutos antes havia também recusado uma página de outro colega por ser muito baixo nível. Colaborei com a MAD por cerca de oito anos. Foi muito bom!

Mas te respondendo, o tipo de trabalho que eu fazia na MAD que era mais interessante era o jogo dos 20 erros, pois era uma enorme composição. Por causa de uma dessas páginas um autor de livro me chamou para ilustrar uma coleção de livros de inglês, o que me propiciou ilustrar muitos livros infanto-juvenis também posteriormente.

3 - Quando e como surgiu a ideia da série Meu Monarca Favorito?

Olha, foi no Twitter. Como disse, já ilustrei diversos livros infanto-juvenis e um deles, que acredito não chegou a ser publicado, tratava da proclamação da república. Na época – e isso tem tempo – a pesquisa feita para compor as ilustrações foi muito interessante. Deu para perceber uma série de nuances do episódio que não são muito claras nos livros escolares.

Bem, um dia estou ali, tweetando, e o Laudo comunica que trabalhava em um quadrinho sobre a proclamação. Eu fiquei entusiasmadíssimo, enviei a ele até meus desenhos, pois conhecia o tema, e eis que ele me diz que sua história se passava toda na cidade de São Paulo. E eu entendi que ela era contada do prisma paulista. Entendi isso. E fiquei a pensar se poderia fazer diferente disso.

Na minha opinião, a figura de D. Pedro II é muito pouco reverenciada, aliás todo o II reinado assim o é. Ele é vinculado à escravatura,  à Guerra do Paraguai, ao atraso e “n” qualidades pouco lisonjeiras. Mas não é só isso. Eu moro no RJ e passei toda a minha infância e adolescência passando em frente ao Paço Imperial, que fica na Praça XV aqui no Rio, e só vim a saber que aquele prédio que abrigava uma agência dos Correios era o palácio do Imperador quando foi reformado e transformado em Centro Cultural nos anos 80.

Pouco se falava do II Reinado na escola e isso vim a perceber – coloco isso como uma opinião minha – porque desde a proclamação da República não havia o interesse de se falar bem do antigo regime. Isso se cristalizou em atitudes que nunca procuravam ver o lado bom desse período. Daí que resolvi aproveitar que detinha algum conhecimento histórico e apreciava a figura e criar o Monarca, que é D. Pedro II sem ser D. Pedro II, pois ele é ficcional – de outra forma eu não poderia tomar as liberdades que tomo, como inventar a Liga Imperial de Football - mas é positivo e friso que nessa webcomic o Monarca é o herói. Os vilões são os conspiradores.  E sob essa ótica e salientando que é uma ficção, eu vou tocando a HQ, e procuro sempre dar uma pincelada em temas relevantes da nossa sociedade.

4 - Além do resgate histórico da figura de D. Pedro II, você também pretende mostrar com sua série uma visão positiva da monarquia enquanto sistema de governo? Como você se define politicamente?

Eu não sou monarquista. Se o fosse faria uma HQ sobre D. Pedro II mesmo, à vera. O que eu entendo é que tivemos um Imperador super gente boa e que ninguém sabe disso por causa de anos de abandono desse tema. Acredito que o Monarca possa gerar um debate e suscitar ao brasileiro à pesquisa sobre esse passado recente – a meu ver – e o esclarecimento, a dualidade de opiniões, ah!, ele era bom por causa disso, mas tem isso, nisso ele não era bom, mas todos os presidentes não foram assim?

Não compreendo por que parecemos não ter no nosso passado nada que não seja vergonhoso ou criticável. Só o futebol escapa disso, mas nós somos mais do que isso, senão não estaríamos aqui. O Brasil não seria um país continental se tivéssemos tido governos tão ruins como se tenta passar historicamente. O monarca visa uma reflexão e um olhar positivo sobre a nossa história, sobre a nossa sociedade, sobre o que fomos e podemos ser. Não se trata de uma visão positiva do sistema monárquico, mas sim de uma visão positiva do passado monárquico que todos temos. Não são os argentinos que vão valorizar nosso passado monárquico, isso tem de partir de nós mesmos. Auto Estima Histórica.

5 - Como é o ritmo de produção de uma tira?

Levo cerca de 8 horas desenhando pintando e letreirando o Monarca. Já a idealização da tira é feita rapidamente, digitada e revisada – hoje pelo André Lasak – e vou publicando na medida em que vou fazendo. Ou seja, o Monarca tem roteiro escrito, mesmo.

6 - Como você vê o mercado de quadrinhos hoje em dia?

Eu tenho a impressão que a diversidade de temas pode ser um caminho bem interessante para o Quadrinho Nacional. Quanto mais diversificado melhor, pois não creio que seguir o modelo americano de super-heróis seja um caminho bom, isso já existe. Claro que pode ser explorado, mas não precisa ser prioridade. Eu defendo um quadrinho mais caretão, que o pai possa ler com o filho do lado, gerando novos leitores. Bem, é o que gosto de fazer. Gostaria que o Mercado me visse também (risos), mas não creio muito que o Monarca venha a ser um artigo de consumo como uma Mônica, um Harry Potter. Ele é mais uma manifestação cultural sem grandes pretensões. Tanto o é que eu o publico, não guardo em gavetas esperando um editor. Quero publicá-lo e ponto.

7 - Fale sobre suas influências em HQ, cartum e ilustração.

Seria basicamente Disney e Tintim. Um pouco de Asterix, um tanto de Escola Belga e Mortadelo e Salaminho. E eu tenho uma curiosidade: Até hoje eu ainda desenho espontaneamente mãos e pés com 4 dedos por causa da influência dos Gibis Disney, quem quiser procurar acha nos meus desenhos esses detalhes.

8 - E sobre seus gostos culturais? Vale música, cinema, teatro, o que quiser.

Eu gosto de tudo que é antigo, carros, música, filmes de época são os meus favoritos. Mas hoje ouço Radio Mec (www.radiomec.com.br), que toca clássicos, e é perfeita para se desenhar o Monarca.

9 - Gostaria de deixar uma mensagem?

Nós temos um passado que não podemos mudar. Já passou. Não adianta olhar pra trás e ficar sentindo vergonha e frustração. Temos de, ao contrário, procurar através dele entender como e porque temos hoje a metade do copo que ainda está cheia e não se esvaziou. E tentar mudar o futuro, este nós podemos mudar, mas não vamos conseguir fazer isso reclamando desse passado, mas sim trabalhando.
E quanto aos jovens desenhistas, façam um blog, mostrem seus desenhos. Não se escondam! Mostrem, mostrem e mostrem do que são capazes! E depois me convidem a visitar.

Obrigado, Tiburcio. Sucesso pra você e para o Monarca!

Para visitar os recantos de Tiburcio na web clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Quem Somos | Publicidade | Fale Conosco
Copyright © 2005-2017 - Bigorna.net - Todos os direitos reservados
CMS por Projetos Web