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Entrevista: Wagner Passos
Por Eloyr Pacheco
14/09/2007

Ao pedir-lhe a entrevista, Wagner Passos respondeu prontamente, mas fez uma alerta. Desde o início ele me avisou que fala muito. E falou bastante mesmo! Aqui ele fala (às vezes com os maneirismos gaúchos) de sua carreira, da Peixe Frito, da revista Idéia, do Vagão do Humor, da GRAFAR e de muitos outros assuntos. Não posso deixar de chamar a atenção para os elogios ao Mestre Canini. Bem, vá logo para o que interessa porque há muito o que ler.

Sendo bem didático: Quem é Wagner Passos?

Minha mãe saberia responder melhor essa, mas vou tentar. Buenas, nasci em 1979 em Rio Grande, cidade do Rio Grande do Sul. Me formei em Ciências Contábeis, sou especialista em Comércio Exterior e Gestão Portuária, estou terminando mais uma faculdade, Administração, até aí tudo normal... hoje trabalho como Estivador no Porto do Rio Grande e edito a revista Idéia junto com meu amigo Alisson Affonso e meu pai, Ivonei D'Peraça. A partir daí a coisa começa a mudar... em 2002 criei o projeto Vagão do Humor, reunindo alguns amigos cartunistas da cidade, buscando divulgar, valorizar e incentivar a produção local de cartuns e Quadrinhos. O que conquistamos hoje no cenário gráfico é fruto desses 5 anos de atividade, buscando conhecer esse universo, intercambiando com outros artistas, fazendo amizades, experimentando técnicas, armazenando dicas e tudo mais. A Internet foi muito importante para esse contato, além de amigos em todo o país, publicamos alguns desenhos em Cuba, Portugal, Espanha, França, Polônia, Egito, sempre nessa atividade de troca com esse povo. Várias pessoas foram importantes nessa trajetória gráfica, hoje com essas duas feras: Alisson Affonso e Ivonei D'Peraça, nos encontramos os três, no melhor momento de nossas atividades artísticas.

Estivador?

Como eu digo, colaborando com o desenvolvimento do país. Desde a modernização dos portos em 1996, muita coisa mudou. Hoje o trabalho é especializado. A Estiva de Rio Grande é considerada uma das melhores do país. É um trabalho muito interessante. Não temos rotina e a possibilidade de diariamente conversar com pessoas de diversas partes do mundo é algo muito interessante. Vou colecionando jornais, revistas e o que mais o pessoal tiver do país deles. Se conhece muita gente boa, alguns já levaram de lembrança para seus países uma caricatura feita a bordo.

Legal, hein?! Como foi que você começou a produzir cartum e charges?

Sempre gostei de desenhar, nunca tinha pensado nisso como profissão. Nunca tinha dado bola quando as professoras gostavam de meus desenhos, ficava feliz, mas nunca pensei no desenho como profissão. No meio da faculdade de Ciências Contábeis resolvi fazer aula de violão na Escola de Belas Artes Heitor de Lemos. Perdi a última vaga da inscrição e como estava a fim de fazer alguma coisa, me inscrevi no Curso de Desenho. Conheci o amigo Marcos Coutinho, que foi o responsável por me passar as primeiras técnicas de desenho. Nunca tinha pensado que havia ciência no desenho. Não consegui terminar o curso por causa de um estágio num escritório de contabilidade, mas segui desenhando e a partir daí, pesquisando. Num belo dia abro a revista Aplauso de Porto Alegre e encontro o regulamento do Salão Internacional de Desenho para Imprensa. Mandei duas charges e não fui selecionado. Ao invés de me injuriar, a não classificação me motivou. Na seqüência descobri o regulamento do Salão Universitário Latino-americano de Humor de Piracicaba, organizado pela UNIMEP. Aí aconteceu minha primeira classificação. Fui o único aluno da FURG – Fundação Universidade Federal do Rio Grande a classificar por 5 anos consecutivos, não ganhei prêmio nenhum, mas só em estar entre os selecionados já era uma vitória. Em 2002 já tinha algumas produções e surgiu a vaga de chargista do Jornal Agora, diário aqui da cidade. Acabei ficando até 2005 fazendo charges diárias. Cursei uma faculdade de jornalismo de maneira informal. Foi um período muito importante de aprendizagem e desenvolvimento do desenho. Recebi duas menções honrosas, uma no Salão de Varginha e outra na Mostra de Humor do Maranhão. Hoje as atividades paralelas e a dedicação para a revista Idéia estrangula o gaiteiro velho a participar dos salões, mas a gente sempre tenta participar.

Veja aí a importância dos Salões de Humor. No seu caso, foram muito importantes.

São importantes sim. Hoje, além da falta de tempo, falta um pouco de motivação também pela desconsideração que algumas organizações têm, tanto com quem classifica, quanto para os premiados. Quem faz o salão acontecer são todos os cartunistas e quadrinhistas. Os vencedores dão o brilho especial.  Quando tu descarta, desconsidera, não informa, não manda nada, um catálogo em CD Rom que seja, ou um e-mail informando que o indivíduo foi selecionado e estará participando da exposição, simplesmente se está correndo o artista de participar novamente. Não é só a grana que conta. Se fosse a gente assaltava banco ao invés de desenhar. O que conta é o respeito, a promoção e valorização do humor gráfico e do Quadrinho brasileiro. Para isso que devem servir os salões. Já soube de muita história de alguns salões. O pessoal tem receio de dar nome aos bois com medo de ser marcado. Realmente é difícil quando se vê algumas pessoas se metendo na organização e faturando grana alta com um evento desses, onde quem tem o trabalho de enviar desenhos, perde tempo e dinheiro mandando pelo correio, faz o verdadeiro papel de palhaço. Lá na Administração a gente chama de Feedback. Fodex, mas tem que ter um retorno. Acaba que só uma turma come, bebe, faz festa e tu nem sabe que teu desenho está exposto e que a atividade toda já aconteceu. Particularmente eu gosto muito do FIHQ de Pernambuco, do Salão de Volta Redonda e do Salão Universitário de Piracicaba, juntamente com o HQ Mix e com o Cartucho de Santa Maria-RS, para mim, os eventos que mais valorizam o humor gráfico e os Quadrinhos brasileiros. A coisa é simples, é preciso ter seriedade e responsabilidade. Fazer um salão, qualquer um faz. Agora fazer bem-feito, de verdade, poucos conseguem. Apesar de tudo isso, considero os salões a matriz de produção de muita gente boa que vem surgindo por aí. Sinto falta é de eventos ligados aos Quadrinhos. Acompanho os encontros que rolam no país pela Internet. Mas eventos como as antigas Bienais dos Quadrinhos seriam muito bem-vindos.

Como foi produzir charges diárias. É um martírio, não é?! (risos)

Tchê, quando saí do Jornal Agora fiquei literalmente dois meses sem fazer um risco. Desenhei por três anos todos os dias, de domingo a domingo, sem férias. Quando voltei das férias concedidas a mim próprio, percebi como o tempo faz falta para um desenhista. Tempo para trabalhar, pintar, sem hora para acabar. Bah, é uma maravilha. Nessa volta, meu traço melhorou bastante. Os desenhos ficaram mais bem acabados. Tenho vontade de voltar a fazer charges diárias, mas desde que seja bem pago, o que é difícil. O Angeli por exemplo, é um fenômeno na charge. A idéia das charges dele são trabalhadas, o desenho é bem estudado. Acho que poderíamos ter muitos outros amigos ao nível do Angeli, desde que houvesse tempo e grana para pagar esses profissionais. Uma alternativa é o que o pessoal aqui do RS faz. Por exemplo, o Moa, o Santiago e o Kayser se revezam semanalmente no Jornal do Comércio. Isso é interessante porque tu não satura o chargista, um pode substituir o outro numa necessidade extrema, além de abrir o espaço para mais de um artista. É uma possibilidade que outros jornais poderiam utilizar como exemplo. Mas no geral a charge não é valorizada. Ela existe em muitos jornais por obrigação porque o jornal concorrente tem. Se os editores pudessem, eles tirariam a charge do ar. Mas um jornal sem charge é um jornal sem sal. É uma pena sofrermos no Brasil com a “Censura Capital”. Os jornais não vivem mais de venda nas bancas ou de assinante, a coisa toda está concentrada nos anunciantes. Quem toma direitinho com essa é o chargista e o povo nesse papo de “imparcialidade”.

Como funciona a GRAFAR?

Meu primeiro contato direto com a GRAFAR foi em 2003 conhecendo pessoalmente o cartunista Santiago, de lambuja o Canini, André Macedo, Rafael Sica e Adão Iturrusgarai. Antes já trocava alguns e-mails com o Juska, Ângelo Pastro, o próprio Santiago. No ano seguinte eu e o Gelson Mallorca enfrentamos a estrada e subimos até Porto Alegre para participar da solenidade do Salão Internacional de Desenho para Imprensa, lá foi um impacto... Edgar Vasques, Rodrigo Rosa, Bier, Rodinério, Jack Kaminski, Otto Guerra, Bendati, Eugênio Neves, Hals... uma tripa de feras. A partir daí fui introduzido na roda (??!) e conhecendo melhor a GRAFAR. A Grafistas Associados do Rio Grande do Sul é uma entidade fundada lá pelos anos 80 com a finalidade de reunir, intercambiar, promover, divulgar, a produção gaúcha de humor gráfico e Quadrinhos. A GRAFAR é hoje essa reunião de amigos, que trocam idéias, piadas, informação, opinião, crítica. Temos hoje uma lista do Yahoo que auxiliou na realização de muitas atividades como o Cartucho, o Espraiar do Cartum Gaúcho, a Edição de Risco. Tu imaginas em torno de 100 desenhistas espalhados por todo o Rio Grande do Sul, alguns em outros lugares do Brasil e do Mundo (como o Rodrigo Rosa e a Lila Mota na Espanha e o Koostella na Alemanha), se reunindo todos os dias mandando e-mails e opiniões sobre vários assuntos. A coisa flui e acredito que tende a evoluir ainda mais.

Belo exemplo a GRAFAR. E você está envolvido diretamente na coordenação de algum destes eventos que mencionou?

Eu participei da organização do Espraiar do Cartum Gaúcho, que foi realizado em conjunto com os demais integrantes da GRAFAR e com o ArtEstação, um Ponto de Cultura que existe aqui no Balneário Cassino e que vem desenvolvendo projetos junto a comunidade através da parceria com o Ministério da Cultura. Além do Espraiar, colaborei ajudando a agitar a turma para a Edição de Risco... 30 anos depois de lançada a primeira coletânea de humor gráfico do Rio Grande do Sul, o QI 14, numa explosão realizada na lista da Internet da GRAFAR, se produziu essa coletânea com 33 artistas gráficos do Rio Grande do Sul. O legal que o livro foi cooperado, produzido pelo próprio bolso. As 1.000 cópias já estão esgotadas. Quem quiser fazer o download em PDF tem nesse link. Hoje temos o Blog da GRAFAR, onde muita coisa legal está acontecendo. Tem no comando o Fabio Zimbres, o Hals, o Gilmar Fraga e o Eugênio Neves. Nesse emaranhado de atividades da GRAFAR é bom lembrar do Cartucho em Santa Maria. Estivemos presentes (eu e o Alisson) nessa 4ª edição. Um espetáculo. O grande responsável por esse evento é o Prof. Máucio, grande agitador com os cartunistas Byrata, Louzada, Elias Monteiro, Reinaldo e entre outros da turma do Grupo de Risco. Bom lembrar também que em 2005 eu e o Hals, organizamos uma das maiores exposições de desenhistas brasileiros na Europa. Durante o 24° Salon International de la Caricature du Dessin de Press et d´Humor na cidade de St. Just –le-Martel participamos como convidados especiais, por ser o ano do Brasil na França, com a exposição Dessinateurs Brésiliens, reunindo 114 desenhos de 64 artistas brasileiros, entre eles Cau Gómez, Rodri Rosa, Fabio Moon e Gabriel Bá, Airon, Custódio, Daniel Dias, Gilmar Fraga, Guazzelli, Jal, Jorge Arbach, Mascaro, Mastrotti, Orlandeli, Santiago, Ronaldo Cunha Dias, entre outros. Essa exposição pode ser vista nesse link. O convite veio do nada. Um dia abri meus e-mails e tinha um em francês e mandei para a lista da GRAFAR, o Santiago traduziu e executamos o trabalho com o Hals. Pena que o Ministério da Cultura não liberou as passagens de avião. Tínhamos tudo pago por 15 dias na França e não rolaram as míseras passagens. Mas um dia quem sabe a gente esteja lá de corpo e alma.

Como foi a experiência com o Peixe Frito? Levar um jornal de humor para bancas num preço tão baixo deve ter sido muito difícil, não?

Bom, o Peixe Frito foi uma experiência fenomenal na minha vida e na do Alisson e também na de muitos colaboradores e leitores. O Max Ziemer nosso caricaturista oficial que o diga. Desde a criação do Vagão do Humor pensávamos na possibilidade de criar um espaço para nós e nossos amigos publicarem, já que estávamos rodeados por uma porção de bons artistas sem lugar para publicar. Pensamos na revista, hoje a Idéia é uma evolução do projeto inicial do Peixe Frito. Pensamos nesse nome porque é um prato comum aqui em Rio Grande, cidade do mar, segundo maior porto marítimo do país. Eu sou fã de tainha frita, corvina frita, papaterra frito, peixe-rei frito e o lance herdado do Pasquim 21 e do Cometa Itabirano lá de Minas Gerais, o qual eu e Alisson somos colaboradores, nos deu esse pulmão de publicar algo crítico. Foram 4 edições do Peixe Frito, cada uma com 1.000 exemplares. No total em 48 páginas publicamos 33 artistas. Essas 4 edições saíram num período de 6 meses, mas causou impacto na cidade e isso era motivador. Produzíamos, diagramávamos, distribuíamos em todas as bancas. Cada edição era um filho. Era um parto fazer tudo isso, tanto que não tivemos perna para publicar mensalmente. Tivemos alguns problemas de distribuição, por exemplo algumas bancas escondiam o jornal, quando achávamos que tinha vendido tudo, lá estava ele enrolado e escondido embaixo da banca. Acredito que exatamente pelo tempero crítico ligado a nossa cidade, algumas bancas pareciam com medo de repressão ou algo do tipo. Além disso o jornal que fica mais de 3 dias no Sol amarela e esse aspecto de velho não vende. Então paramos e pensamos: Qual a possibilidade de fazer uma revista? Esse período de planejamento durou 10 meses até sair a Idéia.

Além do projeto editorial e gráfico, no que a Idéia é diferente do Peixe Frito?

Muita coisa. A Idéia chegou num momento mais profissional da nossa produção, além da proposta que é bem diferente do Peixe Frito. Chegamos a pensar em tirar o Peixe Frito, em matar mesmo essa proposta. Porque pensávamos que o tom crítico do jornal teria fechado várias portas de patrocínio para nós. Fizemos um teste e imprimimos uma prova da Idéia quase sem existir o Peixe Frito e vimos que não havia diferença. A questão não era a crítica que afastava os possíveis patrocinadores, mas a falta de costume das empresas locais em acreditar na produção cultural da cidade. Ao olhar a prova da revista vimos o quanto ficou morna sem o Peixe Frito. Não gostamos. Ao elaborar a coisa como queríamos (o resultado está na Idéia #1), percebemos o quanto a publicação cresceu e assim, saiu a 5ª edição do jornal, nas páginas centrais da revista Idéia. Não foi a toa que o Peixe Frito foi um dos indicados para Melhor Prozine do HQ Mix deste ano. O Peixe Frito é contestação. É a nossa contribuição social. Acredito que todas as pessoas precisam ter um espírito crítico, o nosso, está materializado no Peixe Frito. A revista Idéia surgiu pela nossa vontade de publicar Quadrinhos. Caí nesse mundo através do amigo Gelson Mallorca, quando criamos o Estúdio de Artes do Cassino. O Alisson Affonso já tinha um banco de imagens grande de observações do cotidiano. Líamos muitos Quadrinhos adultos. Era o que queríamos então produzimos a Idéia. O que a revista nos dá é algo único... a oportunidade de experimentar. Produzimos o que estamos com vontade, o que queremos fazer no momento. Não temos regras. Colocamos nossas melhores energias no momento e produzimos aquilo que estamos a fim. Isso é a pedra fundamental do crescimento dos nossos desenhos, na diagramação, e tudo mais da Idéia. E a #3 vem mais porrada ainda. É o que a gente sente. Além disso tem toda uma ligação do que produzimos com o nosso cotidiano. Leon Tolstoi falou, o cartunista Louzada falou e a gente fala também: “Se queres ser universal, comece desenhando a sua aldeia”. É assim que a gente faz a Idéia. Dependemos muito da venda da revista para editá-la. Além de vendermos nas bancas da cidade, na Internet pelo site do Vagão do Humor, organizamos e participamos de uma série de eventos e atividades, como mostras culturais, apresentações musicais, e tudo que tiver uma identidade com a revista onde a gente possa abordar as pessoas e vender no boca-a-boca. É um trabalho de formiga, mas é essencial e nos deixa mais perto de nossos leitores.

É isso mesmo! Essa frase é famosa: “Cante tua aldeia que cantarás o mundo!”. O Alisson Affonso é seu grande companheiro de luta, não é?

Hoje o Alisson é peça fundamental nos nossos projetos, juntamente com meu pai, o Sr. Ivonei D'Peraça. O lance de trabalharmos em conjunto nos possibilita outras visões, outras alternativas que um cara sozinho não conseguiria. Aqui em Rio Grande outros desenhistas são importantes nessa trajetória, como o Max Ziemer, caricatunista, vencedor de salões de humor e grande apoiador de toda a história desde o princípio. Junto com o Max o Luciano Canteiro, o Matheus René e o Gelson Mallorca, com o qual criamos o Estúdio de Artes do Cassino em 2005, um dos principais espaços culturais da cidade naquele ano. Aos finais de semana a atividade acabava às 4 da manhã. Voltando, hoje a revista Idéia só existe porque nós três acreditamos realmente no que estamos fazendo. Não teríamos condições de individualmente fazer esse material cumprindo cronograma, distribuindo, vendendo, divulgando. Essa equipe ainda tem muito que produzir. Sinceramente, estamos no princípio. Vejo um futuro de muitas idéias pela frente.

Como é a distribuição da Idéia?

Boca-a-boca, nas bancas de Rio Grande e via Internet... o pessoal manda e-mail, recebe as coordenadas do banco, a turma deposita e a gente manda pelo correio sem cobrar frente. Barbada!

Fala um pouco do projeto Humor por nossa conta, que eu achei fantástico e deveria ser copiado por outras companhias de energia elétrica.

Cara, esse projeto caiu do céu. O pessoal da GRAFAR, conforme o tempo possibilita, faz alguns contatos aqui, outros ali, e nesse meio tempo surgiu esse projeto da CEEE. Fui convidado, juntamente com Eugênio Neves, Hals, Edgar Vasques, Santiago, Uberti, Juska, Bier entre outros amigos a fazer parte desta atividade. O bom disso é que foi um trabalho pago. Simplesmente não abriram um espaço para os pobres cartunistas divulgarem sua arte. Nada disso. O projeto realmente valorizou a produção dos cartunistas gaúchos. Fui o único do interior a participar, por sinal tem mais um desenho meu a ser publicado nessa série. Não sei como vai ser o futuro desse projeto, se terá continuidade, mas foi algo bem pensado. Além de valorizar a nossa produção gaúcha, deu um ar menos dolorido para a conta de luz. Torço para que o Humor por nossa conta continue e que outras empresas utilizem este exemplo e invistam na cultura, não só no cartum, mas na música, no teatro, no cinema. “Sem arte não há salvação”!!! Essa frase deveria estar na Bíblia.

Você comentou que conheceu o Canini. E é amigo dele? Foi muito legal a editora Abril ter feito um álbum só com HQs dele... O Zé Carioca dele é único! Qual sua opinião sobre ele e sobre o seu trabalho?

O Canini é uma pessoa humilde, extremamente talentosa, criativo, uma lenda viva. Todo o cartunista brasileiro deveria ter a oportunidade de trocar no mínimo, meia dúzia de palavras com ele. Além de histórias para contar, continua um fenômeno no traço. Normalmente a idade chega e o traço vai se perdendo aos poucos. Com o Canini é o contrário, continua em plena atividade em puro estado de evolução. Aquela HQ dele no final do livro Mestres Disney nem sei como foi publicado, aproveitou a oportunidade e sentou o sarrafo. Uma história cheia de elementos, magia, num traço sofisticado. Canini merece muito mais que o álbum do Mestres Disney. Zé Carioca é referência dele por ter literalmente recriado o personagem e tornado o Zé um brasileiro legitimo. Hoje o Zé Carioca está totalmente transfigurado, modernizado, uma tendência maluca sem sentido nenhum. Canini deu vida a um personagem que só tinha um nome brasileiro e nada mais. Canini não é só Zé Carioca, por isso que o álbum da editora Abril ainda é muiiiiiiiiiiito pouco para a magnitude da obra de Renato Canini. Além dos personagens de outras décadas como o Dr. Fraud, Índio Tibica, Kactus Kid, Zé Candango, ainda tem uma infinidade de cartuns e de livros infantis ilustrados por ele... e conto mais, o cara ainda está em puro estado de produção com livros engatilhados a espera de uma editora para publicação... aêêê Conrad, Panini, L&PM, Devir... tá caindo de maduro essa daí. Resumindo tudo que falei: Canini é gênio.

Embora você já tenha comentado que vocês abriram o próprio espaço para publicação (sempre comentamos por aqui que o meio independente é um ótimo celeiro), dá uma dica para quem quer publicar Quadrinhos no Brasil?

Antes de tudo... acreditar. Se você não acreditar em você mesmo, ninguém irá acreditar. Essa é a nossa vantagem, sabemos em que patamar estamos. Recebemos elogios, críticas e sabemos que não somos tão bons, mas também não somos tão ruins. Sabemos que estamos aqui aprendendo, conhecendo, experimentando, brincando e trabalhando ao mesmo tempo... e esse é o espírito da coisa. Humildade também não faz mal a ninguém. Na questão da produção aí vão as 7 dicas.

1- Não tenha medo das gráficas, faça orçamentos, pergunte e siga adiante... aqui você tem acesso a todas as gráficas do Brasil.
2- Experimente, explore, pesquise, veja outras publicações. A Chiclete com Banana foi essencial para produzirmos a Idéia. Fizemos uma seleção de material que tínhamos, de todas a que mais se aproximou do que queríamos fazer foi a Chiclete... ainda é uma publicação imbatível. Mas existem outros exemplos, a Mosh e a Juke Box são projetos sintéticos no tamanho e muito bons.
3- Às vezes o negócio é ter uma equipe fixa que se possa contar. Daqui a pouco se está correndo atrás de colaboradores e deixando o tempo de desenhar de lado. Então o negócio é essa equipe mesmo produzir. Não é uma questão de individualismo. É garantir que a equipe vai executar aquilo que está se propondo fazer e dentro da proposta, convidar outros amigos a colaborarem.
4- Distribuição... essa é a pedra no sapato de todo editor independente. Nós conseguimos uma parceria boa com a distribuidora local de revistas. Agora, para vender mesmo aí tem que tirar leite de pedra. Usamos a técnica do boca-a-boca, vendemos para os amigos, participamos de eventos culturais. Queremos que as pessoas prestigiem nosso trabalho, então temos que correr atrás das pessoas.
5- Tente cumprir um cronograma. Uma regularidade da publicação. Se ela se quebrar, pode-se quebrar a credibilidade da equipe perante os apoiadores e os leitores. É importante ter organização... principalmente.
6- Faça o que você tiver a fim de fazer. Se te der prazer, outras pessoas também terão. Assim sendo, você colocará o máximo de suas energias no trabalho, você perceberá crescimento na qualidade gráfica e o resultado disso são os leitores elogiando e pedindo a próxima edição. Não tenha medo de experimentar, não siga tendências de mercado... faça você o mercado. Se quiser fazer uma HQ sobre sua avó, faça. O Brasil é o país dos anti-heróis. Cruzamos por personagens todos os dias... é tudo uma questão de percepção.
7- Desenhe, estude, persista, pesquise, leia, crie, coma, beba, faça sexo e tome banho... Artista também é gente. Viva!

Valeu, Wagner. Obrigado pela entrevista.

Eu que agradeço, Eloyr. O Bigorna é, sem dúvida, uma das grandes referências da Internet sobre Quadrinhos. Com certeza é um registro que fica. Muito boa essa troca de "Idéia". Vamos às atividades, então. Abração e sucesso para todo mundo aí!

O Bigorna.net agradece a Wagner Passos pela entrevista concedida em 2/08/2007

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