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Minha passagem pelos Quadrinhos dos Trapalhões
Por Bira Dantas
13/03/2007

Com 13 anos, fiz um estágio rápido no Estúdio Mauricio de Sousa, onde conheci o grande e saudoso Jayme Cortez. Em 1979, o Estúdio Ely Barbosa produzia quadrinhos Hanna-Barbera para a Rio Gráfica Editora e publicou um anúncio em jornal: "Precisa-se de Desenhista de História em Quadrinhos com ou sem experiência". Minha mãe, dona Lourdinha, que lia o jornal, recortou o anúncio e lá fui eu, do Tatuapé para a avenida Indianópolis, do outro lado da cidade. Cheguei, sem experiência, mas com uma pasta a tiracolo cheia de desenhos: HQs de super-heróis, uma quadrinização de O Guarani que fiz para a escola e algumas páginas ampliadas do Pelézinho e Mônica calcados no traço do Zé Márcio Nicolosi (atual diretor de arte de animação e um dos desenhistas mais copiados do estúdio MSP).

Ely foi publicitário, fez centenas de desenhos animados até 1976, quando passou a trabalhar com os personagens infantis que criou: Turma do Cacá, da Fofura, do Gordo, Patrícia, Os Tutti Frutti e Os Incríveis Amendoins. Produziu diversas revistas em Quadrinhos, Cacá, Gordo, Patricia e Fofura na Editoras Abril, e Os Trapalhões, para a Bloch e a série Hanna-Barbera para a RGE (atual Editora Globo). Escreveu e desenhou dezenas de livros infantis e um romance adulto Yanomami, um Grito nas Selvas (Editora Maltese). Criou para a Rede Band de TV as séries TV Tutti Frutti e Boa Noite, Amiguinhos (1983).

Foi muito instigante para um cara louco por Quadrinhos (e com 17 anos como eu) ter contato com um estúdio que produzia revistas para as editoras Bloch, RGE e Abril, e animações e comerciais de TV para clientes como Sílvio Santos e D.D. Drin. Uma parte desse artigo surgiu através de uma entrevista para o Marcus Ramone. Através do estúdio do Ely publiquei minhas primeiras páginas em Quadrinhos.

O Estágio
Fiz um estágio de dois meses, onde pude acompanhar as várias fases de produção de um Gibi e conhecer profissionais da velha guarda como João Baptista Queiroz (fez Cacareco, Oscarito e Grande Otelo), Eduardo Vetillo (desenhou Chet pra Editora Vecchi) e Sérgio Lima (foi desenhista de Quadrinhos de terror e romance, além da Maga Patalógica pra Abril). O Ely tentou me encaixar com o pessoal que pintava as capas, mas depois de duas tentativas, ele desistiu. Naquele tempo, o meu negócio era desenhar. Como um bom iniciante, eu vivia refazendo desenhos, esboçando capas (que nunca foram aprovadas) e criando páginas. E mostrava para todos os feras do estúdio, para tentar melhorar! Um dia o Ely disse que minha vontade de mostrar meus trabalhos era tanta, que ele não se surpreenderia de, ao se deitar com sua esposa Thereza, me ver sair debaixo da cama com algumas páginas pedindo pra ele olhar! Lá, travei contato com Cleiton Caffeu (que depois eu iria reencontrar no estúdio de animação do Briquet), Arthur Garcia (que me substituiu como chargista no jornal trotskista Em Tempo), Mingo, Genival, Kymura (que havia passado pela Abril), Pontes, Wanderley, Waldemar, Carlão, Joel (criador do logotipo eskimó da Brastemp), Cidão, Alexandre Silva, Thomas, Thereza (esposa do Ely), Eliete, Mareliz e Otávio (filhos do Ely), João, Bonini, Watson Portela, José Lanzelotti, Vila, Orlando Costa e os contatos publicitários Otávio Mesquita (muito antes de ele sonhar em ser apresentador de TV), Matilde Mastrangi (atriz), Éder Jofre (ex-pugilista) e o dublador do Fred Flintstone nos desenhos.

Ainda na época da produção de Quadrinhos Hanna-Barbera, o Ely me indicou para ser assistente de um de seus grandes desenhistas: Eduardo Vetillo. Meu trabalho era passar seus desenhos (feitos em folhas de papel sulfite grosso com marcação em azul de quadros e linhas para letreiramento) a limpo, numa folha de Schoeller, seguindo as alterações que o Edu determinava (como posicionamento de personagens e cortes). Claro que no começo eu apanhava muito para reproduzir os traços sutis de expressão dos esboços originais. O estúdio do Eduardo ficava na Lapa, era um galpão de fundos de uma casa na rua Pontaporã, metade do Ismael dos Santos (que produzia material para a TV Cultura e dava aula, onde passaram conhecidos meus como o Spacca e o Riba), metade do Eduardo, que dividia a sala com o Walter Caldeira (pintor impressionante) que na época produzia capas de livros e reproduzia, em guache, cenas históricas brasileiras criadas por Ivan Wasth Rodrigues. Eu trabalhei um ano como assistente do Eduardo, até o dia em que ele me disse que o projeto Trapalhões estava crescendo, precisava de novos desenhistas e que eu já estava apto para bater asas próprias.

Os Gibis
Os Trapalhões propriamente ditos (os de carne e osso) davam algumas opiniões a respeito de detalhes dos personagens como costeleta e entradas na careca do Didi, tamanho do beiço do Muçum, boiolice do Zacarias e esperteza e coragem do Dedé. As sugestões eram feitas através do pessoal da Bloch do Rio diretamente para o Ely Barbosa. Desenvolvemos, além da revista mensal, almanaques e especiais da Turma do Didi e do Bonga. Nossa surpresa foi notar que os roteiristas do programa de TV estavam adaptando vários roteiros publicados nos gibis. O Sérgio Valezin e os outros roteiristas pediram pra receber os créditos e o pagamento, que a Globo claro que não deu! Essa história O mestre das Invenções foi desenhada por mim em 1981 e publicada pela Bloch editores em 1982, no Almanaque de 100 páginas Os Trapalhões #3. O roteiro foi do Orlando Costa e a arte-final foi do Wanderley Feliciano. Ela pode ser vista, na íntegra, aqui.

A criação do modelo dos personagens (model-sheet) e as primeiras HQs (já com o caminhão Scamba) foram feitas pelo Carlo Cárcamo, irmão do Gonçalo. Ele era muito tarimbado, tinha trabalhado pra muitas agências (e depois que saiu do Ely, fez aquela animação fantástica da Telefunken). A gente seguia esse modelo com uma certa liberdade. Assim, desenhistas da velha-guarda como João Baptista Queiroz e Sérgio Lima imprimiam seus estilos nos personagens. As idéias nonsense surgiram dos roteiristas mesmo. O Sérgio Valezin, Genival de Souza (irmão do Domingos, que era diretor de arte) e o Orlando Costa (meu colega de colégio, animador autodidata, que levei pro estúdio) tinham uma imaginação muito fértil e se divertiam criando as situações mais inusitadas como personagens soltos no vazio das páginas de HQ... O Eduardo gostava de caricaturar (soberbamente) o pessoal do estúdio, e o próprio Ely em histórias completamente doidas.

Eu cheguei a fazer roteiros em épocas de baixa produção (como Uma Aventura no Zoo e A Revolução dos Bichos), mas não era o meu forte. O Ely tinha um piadista inveterado e muito engraçado, o Sérgio Valezin. Ele se tornou um dos grandes roteiristas do estúdio. Depois foi escrever roteiros para programas humorísticos do SBT, onde está até hoje. O humor dos Quadrinhos dos Trapalhões, analisando bem, tinha um teor pendendo para o adulto, com piadas que nem toda criança entendia. Por isso mesmo, também era lido por outras faixas de público, não só o infantil. Acho que seguia um pouco o padrão humorístico do programa, com piadas com tom levemente erótico. Não sei se era uma linha determinada. Isso só o Ely poderia responder. Não passavam nenhuma definição pra gente na época. Mas era claro que nosso público abrangia uma faixa etária do pré-adolescente à terceira idade.

Censura
Teve uma história que eu criei o argumento, passei pro Orlando fazer o roteiro, foi aprovada pelo Ely e voltou pra que eu desenhasse. Era sobre uma greve da Legião dos Super-Heróis que reivindicavam Salário, Férias e FGTS. Um dos super-heróis coadjuvantes era o Homem-Lula (nem preciso falar de quem era a cara dele). Isto foi em 1980, durante as grandes greves dos Metalúrgicos do ABC. A história voltou do Rio, censurada. Onde tinha greve, tivemos que escrever Férias. Onde tinha Direitos Trabalhistas, tivemos que mudar pra descanso, folga, preguiça. O Ely ficou bravo, pois não tinham tido roteiros censurados assim, mas era isso ou não ter a história publicada.

A equipe básica era composta por:
Roteiristas: Sérgio, Orlando A. S. Costa, Genival Souza, Flávio da Costa Pinheiro, Ricardo Martins.
Desenhistas: Carlo Cárcamo, eu (meu nome entrava nos créditos como Ubiratan Dantas), Eduardo Vetillo, Carlos Alberto Migliorin, Watson Portela, Domingos Souza (Mingo-capas), Ademir da Silva Pontes, Fernando Bonini
Arte-finalistas/Letristas: Waldemar Watanabe, Wanderley Feliciano, João Andrade (irmão do cartunista Floreal), Waldir Odorisso, Joel França
Cores: Déborah Maluf (que não era parente do Paulo), Yara Raphael
Coordenação: Theresa Rodrigues (mulher do Ely) e Eliete R. Barbosa (filha). Supervisão Ely Barbosa

Eu não sei ao certo o motivo da revista ser cancelada por volta de 1984. Na época, alegaram que as vendas tinham caído. Acho estranho porque além do gibi Os Trapalhões, publicavam o Almanaque, Aventuras do Didi, Bonga, o vagabundo e Almanaque Super-Trapalhões. As revistas eram muito bem recebidas nas bancas. Acho que deve ter sido problema de contrato entre o Renato Aragão e a Bloch do Rio. Eu havia saído do Estúdio no começo de 1982 pra fazer charges na Imprensa Sindical, um contato via charges que começou em 1980 com a Oposição dos Químicos/SP e Oposição dos Metalúrgicos (Luta Sindical). Trabalhei como chargista do Sindicato dos Químicos (Sindiluta) de 1982 a 1988, trabalhando como jornalista (ilustrador), com a metade da jornada, o dobro do salário do estúdio (eu era free-lancer) e com carteira assinada.

Portanto, eu fiz parte da equipe que desenvolveu a segunda fase do gibi dos Trapalhões no estúdio Ely Barbosa, de 1980 a 1985. A primeira fase, incluindo a animação de TV foi feita pelo pernambucano Sávio (que criou o model sheet) e o pessoal da Bloch do Rio, por volta de 1976. A terceira fase foi dirigida pelo Primaggio Mantovi na Abril (1988) com os personagens dos Trapalhões retratados como crianças. O Watson Portela estava desenhando lá e me indicou pro Primaggio. Cheguei a desenhar uma história de 10 páginas, mas desisti... pois meu estilo não se adequava muito ao esquema Abril (o traço que iria marcar minhas charges já estava se delineando) e eu estava de mudança pra Campinas.

O estúdio do Ely deixou muita saudade por conta da liderança artística que possuía. Ele não era só empresário/administrador, criava, desenhava, traçava novos projetos, gostava de discutir as histórias pessoalmente com a gente. Tinha o hábito (sofrido, pra nós) de puxar linhas a lápis, para marcar alguma mudança na beirada da página. A gente tinha que apagar as linhas, redesenhar o que estava OK e corrigir os problemas de perspectiva ou de proporção nos personagens. Talvez isso nos obrigasse a desenhar ainda mais (rs). Sei que passaram mais dezenas de pessoas por lá como Paulo Borges, Carlos Henry, Marcos Cortez, Brito (grande caricaturista que trabalhou na Santista Têxtil no Centro Empresarial e desenvolveu lençóis com os seus personagens) entre outros...

Relatos
Paulo Borges
"O Ely foi realmente um artista-empreendedor. Abriu portas pra muita gente. Se eu soubesse que seria tão raro hoje em dia um anúncio de jornal que ele publicou na Folha de São Paulo, teria guardado a 7 chaves: Precisa-se de Desenhista de História em Quadrinhos, com ou sem experiência! Sim... um dia eu vi isso no jornal e quando fui lá, o estúdio estava lotado de gente, a grande maioria sem experiência assim como eu. Lá eu comecei a ganhar dinheiro com desenho e aprender com muitos craques que passaram pelo estúdio. Chance única que abracei. Com o Mingo tive pouco contato, mas tive a oportunidade de trabalhar com o irmão dele, o Genival. Um figuraça que era um excelente roterista de HQ. Trabalhamos juntos no estúdio do Ely e na Abril. Realmente... o Brasil anda carente de pessoas que dêem oportunidade pra quem está começando."

Newton Verlangieri
"Fiz um breve estágio no estúdio dele em 1982, que ficava na Av. Indianópolis. Não cheguei a conhecê-lo bem, porque ele nem me recebeu pessoalmente, viu meu portfolio enquanto eu aguardava na recepção e depois aprovou-me como estagiário. Durante o estágio ele só me dirigiu a palavra uma vez. Mas durante este estágio aprendi técnicas de desenho muito úteis que utilizo até hoje, através de um talentoso desenhista/diretor de arte chamado Mingo. Da época me lembro também do Marcos Félix desenhista, do Orlando um roteirista muito engraçado e do Genival, irmão do Mingo que era roteirista e também um ótimo desenhista. Mas o Ely foi realmente uma figura importante para o desenho brasileiro. Ele empregou e formou muitos desenhistas e artistas. O Brasil precisava de mais artistas-empreendedores como ele. O Ely chegou até a ter um programa na TV Bandeirantes, com bonecos estilo Muppets e também fazia a revista dos Trapalhões."

Bira Dantas
Hoje me arrependo de ter saído do estúdio pra me dedicar só às charges. Fiquei um bom tempo afastado desse universo. Eu poderia ter produzido mais alguns anos de HQs ao lado destes gigantes. Essa vai ficar para uma próxima vida, quem sabe...

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