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A Arte e seu engajamento político
Por Bira Dantas
04/09/2006

Desde que o homem começou a pintar suas caçadas e aventuras nas paredes das cavernas, além de registrar eventos que apenas seus participantes conheciam, fazia algo inédito: retratava a política de seu tempo. Quem acertava o cervo com a lança? Quem corria do tigre dente-de-sabre? Quem era esmagado pelo mastodonte. Tudo era registrado pelas manchas coloridas daquele artista pré-histórico. Claro que devia aumentar um pouco aqui, mudar um pouco ali, mas o básico estava lá representado. Assim ficamos sabendo como era a hierarquia no grupo de nossos antepassados e como se relacionavam com o meio. O tempo passou, as relações humanas se modernizaram e complicaram, assim como a arte.

Alguns defendem que ela não deve ser engajada. Outros, que não deve representar as figuras reais, mas sim o abstrato. Mas muitos acreditam que a arte deveria ser revolucionária, no sentido de romper com o passado e apontar novos caminhos para o presente e futuro. Assim surgiram o Impressionismo, o Expressionismo, o Cubismo, o Modernismo, o Surrealismo, entre várias estilos e escolas de pintura, escultura, literatura e cinema. No fundo, essa discussão toda diz respeito ao CONTEÚDO das obras de arte. Sempre ouvimos que toda ação em comunidade é uma ação política, mesmo a de quem é contra tudo o que se coloca em sociedade. Para mim, uma obra sem conteúdo é meramente decorativa. Pode ser interessante, mas não se desdobra. Eu gosto mesmo é daquelas que mostram suas várias facetas, despertando discussões e promovendo novas formas de se ver a realidade.

Bira no Movimento Sindical
Publiquei minhas primeiras charges em 1980 nos jornais do PT. Desde 82, publico diariamente em panfletos, boletins e jornais de Sindicatos e da CUT. Trabalhei como chargista do Sindicato dos Químicos (Sindiluta) de 1982 a 1988, mas o meu contato (via charges) com a categoria começou em 81 com a Oposição dos Químicos/SP (eu também fazia charges para Oposição Metalúrgica SP- Jornal Luta Sindical). O uso de charges e quadrinhos era muito bem aceito por todos, principalmente como forma de facilitar a informação dos trabalhadores. O boletim tinha uma capa voltada pra categoria e o verso para conjuntura nacional, que eram recortes de jornais. No começo eu não fazia charge editorial, eu ilustrava as matérias. Saía, em média, 2 charges por dia, uma de fábrica e uma de política. A que acompanhava a matéria de capa era maior. Quando o diretor chegava com uma denúncia quente, ele já pedia charge e, às vezes, já vinha com idéia. Os jornalistas também pediam, quando iam soltar uma matéria sobre economia ou tema meio complicado. O diagramador pedia vinhetas ou ilustrações para gráficos. Só depois da mudança do projeto gráfico do Sindiluta, eu ganhei um espaço de charge editorial e no verso eu fazia uma tira em quadrinhos com o Marcatti. Uma vez um operário jurou que eu tinha trabalhado na fábrica dele. Rolava o boato que eu saí de lá direto pro sindicato, por isso sabia desenhar a cara do patrão, dos chefes e dos trabalhadores. Lendas...

Nessa época, todo sindicato combativo queria ter um chargista, as Oposições Sindicais vinham atrás, as Pastorais, os Sem-Terra, isso criou uma nova fatia no mercado de trabalho pra cartunistas. Tinha trabalho pra todo mundo, surgiu uma safra boa de cartunistas. O Vargas, o Éton e o Laerte já tavam lá; pintei eu, o Marcio Baraldi, o Gilmar, o Falkon, o Pecê, o Paulo Monteiro. Quando cheguei em Campinas em 88, só tinha um chargista (Donizete) na área sindical. Aqui também teve um grande número de cartunistas. Agora vivemos um refluxo, cartunistas demitidos, trocados por clip-arts. A charge em qualquer órgão de imprensa, do boletim de moradores de bairro, ao jornal mais elitizado, é importantíssima. É um espaço de pensamento crítico, de resistência à opinião simplista e acomodada. Sou chargista do Sindicato dos Eletricitários e dos Petroleiros de Campinas.

Engajamento político-social bem humorado
É a melhor junção da fome com um prato bem cheio do que mais me abre o apetite. Realmente, ler textos de esquerda (ou não), discutir com quem tem afinidade ideológica, ajudou a forjar uma postura que arraigou-se em mim de tal forma que sinto um vazio interior quando fico algum tempo sem fazer charges. E não adianta comer um belo prato de feijoada bem apimentada. Vou roncar um bocado depois, mas quando acordar, a vontade de fazer charges volta com toda força. No ano passado fui com a família pra Maceió. Levei laptop e scanner. Mandava charges pros jornais dia sim, dia não. Além disso, tive a sorte de trabalhar em sindicato desde 1982, pude ancorar minhas charges neste porto seguro. Certamente em jornais diários eu teria (como tive) problemas com censura. Na Guerra do Golfo, fiz charges abertamente favoráveis ao Iraque. A comunidade judaica de Campinas reclamou.

Os Chargistas de hoje
Acho que ainda temos chargistas que colocam o dedo na ferida. Maringoni e Lor são dois que faziam isso e acabaram fora da Imprensa diária. Marcio Baraldi faz isso na imprensa sindical. Latuff e Claudius na imprensa alternativa. Angeli, Jaguar e Nani, na grande imprensa, têm sacadas fantásticas e fazem algumas charges que são verdadeiros “diretos no estômago”. Mas, no caso da Folha que é “tucana”, tenho certeza que se ele fizer uma dessas “pesadas” com o Serra ou Alckmin, terá problemas como o Paulo Caruso já teve, por isso ele saiu de lá, em pleno primeiro turno da eleição de Lula.

Governo Lula
Acho que o problema está no conceito de que o chargista não tem lado. Eu sempre tive. Não sou franco-atirador (rs). Sou um dos poucos chargistas que defendem o governo Lula, além do Baraldi, claro! Eu até fiz a biografia do Sapo Barbudo em quadrinhos. Tiram sarro de mim nas listas de discussão de cartunistas em que participo. Falam que chargista não pode ter lado. O Angeli deu entrevista na Veja dizendo que quem faz charge a favor faz publicidade e não charge. Eu discordo. Pra você ser contra uma coisa, tem que ser a favor de outra. O fato é que ninguém quer dar a cara pra bater. Rola coisa estranha no meio dos cartunistas e todo mundo fica ali, fingindo de morto. Eu não... Parto pras cabeças mesmo. Sou assim, ué! E visto a camisa mesmo! Não ganhei mensalão e não fiz nenhum frila pro governo federal (até me convidaram pra fazer dois gibis), mas acabei não fazendo.

A polêmica das charges de Maomé
Como no caso da confusão gerada pelas charges de Maomé. Eu acho que existe um limite para a liberdade de expressão. Apesar de defender o direito de liberdade que todo cartunista deve ter para escolher seus temas de sátira, não posso concordar com a falta de respeito a culto, sexo ou raça. Eu não acho que devemos ter o direito de atacar outras crenças só pelo fato de querermos ter o direito de atacar. Isso revela falta de critério, de objetividade e pura provocação. Uma coisa é satirizar homens-bomba e outra, atacar a Religião Muçulmana, que (em alguns casos) proíbe a representação de Muhamad em imagem. A Liberdade de Expressão tem de ser exercida com responsabilidade. Se eu fosse um dos chargistas que publicaram na Dinamarca, me importaria com as mortes decorrentes dos protestos!

Mercado de publicações no Brasil
Perdemos o Pasquim, o Movimento, Opinião e Versus. Depois perdemos a Bundas, Palavra e o Pasquim21. Estou cheio de ver o Brasil perder. Temos revistas muito boas como a Revista do Brasil, Carta Capital e Caros Amigos. A última é muito bem ilustrada, mas só tem a charge do Claudius. O público leitor adora charges. Mas é pouco. Vai ver quantas revistas BOAs a Argentina tem...

Aceitação
É só ver como as pessoas mandam e-mail com charges anexadas, todo mundo adora. Agora veja a situação de um site como o do Mariano (o Charge Online), com mais de 50 chargistas de todo o Brasil: tinha que estar lotado de anúncios e só conseguiu permutas que pagam pelos cliques redirecionados, bem já é alguma coisa.

Blogs e fotologs
Eu adoro (tenho 14) e atualizo aos poucos, se for conferir a visitação de um dos meus fotologs de charges do Terra, dá 36.813 visitas em um ano. Gosto das respostas às minhas charges no blog Os Amigos do Presidente Lula. Quando eu coloco charges sobre as Guerras, causam uma polvorosa. Quando tive um entrevero por e-mail com o pessoal da Heloísa Helena também. E todo mundo me deu razão, até porque sou bem transparente. Como no caso dos ataques ao Líbano, Iraque e Palestina. Não dou boi. Meto o pau mesmo. Coloco links de sites que mostram as desgraças que esses povos passam, sites de abaixo-assinados pro Brasil romper relações diplomáticas com Israel. Não faço concessão. Sou anti-imperialista. Anti-tucanos e pefelentos (este foi um dos títulos do meu flog). Tem gente que reclama, diz que o Governo Lula também é corrupto. Eu defendo o governo nos textos dos flogs, pois acho que só o fato do governo ter feito as classes E e D subirem pra C (manchete da Folha) já é um grande feito. Podia ter sido sem Caixa 2, Mensalão (ainda não foi MESMO esclarecido), mas é o que é possível. Eu não vou ser um falso idealista e achar que só boas intenções e ética fazem alguém ganhar uma eleição. Mesmo a Heloísa Helena ficou quieta quando eu perguntei se ela ia devolver o dinheiro de Caixa 2 do Delúbio. E ainda me ameaçaram.

A charge sindical
Citando Rozinaldo Miani: “O reconhecimento de que a charge se coloca como um importante instrumento de comunicação para o trabalhador. Pela sua natureza lúdica, pela sua natureza de humor ela consegue ser um transmissor bastante efetivo de idéias e valores e até mesmo de contradições desenvolvidas pela imprensa sindical. O texto, normalmente tem um controle um pouco maior na sua elaboração e a charge acaba tendo um espaço um pouco mais amplo de revelação, de antagonismo. E era essa a nossa preocupação de pensar tudo aquilo que faz parte de uma cultura sindical. Uma cultura sindical permeada por conflitos, por antagonismos, por uma mudança de postura política das direções sindicais. Todos esses aspectos poderiam ser apresentados pela charge de uma maneira mais livre, mais lúdica, com mais humor. (...) Não que as imagens não tenham sido usadas em outros momentos da historia da imprensa. O Movimento Anarquista usou bastante a imagem nos seus jornais. A charge que foi utilizada na imprensa alternativa teve uma importância bastante significativa. Então todas essas experiências anteriores ajudaram a perceber a importância de também na imprensa sindical a gente explorar essa forma de comunicação. E durante a década de 90 ela se consolidou. Infelizmente hoje ela já não tem essa presença tão significativa, mesmo nos sindicatos que tradicionalmente trabalharam com charge. Mas ainda acredito que ela é bastante constitutiva dessa linguagem da imprensa sindical. (...) Então tem charge que revela uma situação de luta anticapitalista que o próprio discurso do movimento não revela. Esse potencial da charge se fez bastante significativo para o nosso estudo. Para mostrar que na cultura política sindical desse período da década de 90, mesmo considerando o movimento sindical de natureza essencialmente propositiva e longe de uma perspectiva anticapitalista, ainda existe na constituição dessa frente de luta chamada Movimento Sindical. Existem valores que clamam, que gritam por seu espaço de denúncia e também de valores anticapitalistas. A charge se mostra ambivalente. Ela não está presa a um discurso único e unilateral de uma direção sindical”.

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