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Será que os gibis de terror eram infantis?
Por Carlos Patati
18/07/2010

Não cheguei a ver gibis de terror da Editora Outubro nas bancas. Os primeiríssimos gibis que conheci tinham o selo da Editora Taika.  O principal destes era “Drácula”, mas também havia “Naiara , a Filha de Drácula”, “Terrir”, “O Escorpião” (um super-herói sinistro), “Seleções de Terror” e uns outros tantos.  Conheci na banquinha de revistas usadas, numa pequena galeria em Copacabana, no caminho da casa da minha avó. Não numa banca de jornal. Isso os tornava ainda mais misteriosos. Os super-heróis da Marvel e da DC tinham trânsito fácil lá em casa, mas estes gibis vi logo que não era bom deixar minha mãe ver. Havia sangue, e moças de pouca roupa, mesmo que boa parte das histórias fosse de época. 

O principal desenhista se dedicava ao rei dos vampiros. Chamava-se Nico Rosso, era prolífico, e excelente. Fazia as capas também, mas misteriosamente, a editora poucas vezes punha no gibi a HQ anunciada na capa . Os gibis tinham as ilustrações trocadas, mas era possível e até divertido, achar a HQ correspondente à ilustração de capa, noutro gibi. A gente comprava alguns aos pares, casando a capa com o gibi certo. Além do trabalho de Nico Rosso, naqueles gibis pude ler, impressionado, histórias assustadoras, mas sedutoras, desenhadas por Ignácio Justo, Julio Shimamoto, Juarez Odilon, Edmundo Rodrigues, Eugenio Colonnese, Flavio Colin, Rodolfo Zalla e diversos outros.

Além dos da Taika, encontrei também uns mais largos, da M&C (Minami & Cunha), e desses até na banca, com surpresa e alegria, consegui comprar. Os gibis eram  mal impressos, ainda mais se comparados aos que eu mais conhecia, os da Ebal e da Editora O Cruzeiro (graças ao início da minha coleção, fundada por meu irmão dez anos mais velho). Tudo isso os tornou misteriosos, e seu jeito manuseado combinava com seu conteúdo. O vendedor da enorme pilha de gibis usados se divertia com o nosso assombro. Ele vendia um monte de coisas curiosas, como livros velhos, bonecos usados, chaveiros, canivetes, bola de gude, tralhas de guri. Mas o que nos levava lá, e  fazia voltar, eram os gibis. Aquela pilha me impressionava mais que  todos os gibis DC da Ebal e Disney da Abril, que eu via na banca comum. Eu lia muito mais do que comprava, mas como comprava algum, ele deixava escolher. Se divertia comigo e os outros moleques, todos moleques, fascinados por aqueles gibis estranhos, que nos sugeriam que dava para ser bem menos comportados do que os outros gibis que a gente conhecia. Só permanecia, pra mim, supremo, no universo dos outros gibis, o Tarzan do Russ Manning. Estes como os de terror, eram assinados pelo artista, o que os tornava parte de uma certa elite, ao nosso ver.

Isso aconteceu no comecinho dos anos 70, quando eu já tinha mais de dez anos, e estava começando a apreciar certas ousadias. Comprar assustadores gibis de terror, e tê-los em casa sem que minha mãe notasse, realmente era grande travessura. A única pessoa mais ou menos adulta, mas que não era tanto, era meu mano. Ele chegou a ir comigo na tal galeria, que o impressionou bastante. Mas ele notou que lá só tinha molecada, e essa galeria antiga logo voltou a ser meu território, de novo.

Frequentei o lugar durante muito tempo, antes que a galeria fechasse, ou que os gibis do camarada acabassem. Ele de vez em quando renovava, mas só de longe em longe. A confraria dos moleques fascinados continuou se encontrando mais um tempo, mas sem aquela carga maravilhosa ao nosso alcance, ficou difícil. Ainda hoje, contudo, trago na memória algumas das  conversas que aconteceram naquele lugar, onde descobri que gibi talvez pudessem ser coisa de gente grande, também. Ou do que eu imaginava que fosse gente grande, naquele já tão distante tempo.

Uma certa troca de frases, que aconteceu naquele lojinha, conosco sentados no chão lendo os gibis, a título de escolhê-los, ficou comigo.  O Drácula do Nico Rosso, no gibi que eu estava lendo com um confrade mais novo, agarrou sua vítima e rasgou seu vestido sem piedade. Seu seio quase pulou fora do decote, assim nos pareceu. Meu colega, fascinado, mandou:

 -Caramba! Já imaginou se ele morde a bunda dela!?

Eu caí na risada, e ele também, os dois muito espertos e metidos a gente grande. A gente era uma molecada eletrizada. Por isso é que, volta e meia, sou obrigado a me perguntar, de novo: será que os gibis de terror daquele tempo não eram, mesmo, assunto de criança? Eu só vi criança interessada, mesmo sendo, como todas, crianças crescendo.

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